sábado, 10 de março de 2007

Nua pergunta. Você, diante de mim, parada nua, me interpela. Quer saber em sua nudez perplexa, diante de mim, atônito, do que eu nunca soube, jamais. O desejo que escorre dos seus olhos desce doce e empoça no umbigo. Pinga em gotas de perguntas que eu não sei responder. Percorro ansioso com meus olhos, as suas formas, com as pontas dos dedos, tateio o risco das letras que o seu corpo desenha e que não sei decifrar. Percorrem minhas narinas todos os cheiros que em verdes pastagens me convidam para em ti descansar. Bebo em tua fonte. Deito a minha língua no teu cantil. Sorvo sôfrego, delicias que nem sei nominar. O que queres de mim mulher, mais do que te posso dar ? Se o que me perguntas é o que não sabes responder, por que estimas que eu tenha para ti, resposta a oferecer? Pois de tudo que pude saber, o teu desejo não cala, mas também não sabe falar.

domingo, 4 de março de 2007

Transverso
Delicadas as fronteiras dos mundos em que habito e que, de um lado para o outro, sem perceber transito. Neles as coisas podem ser e não ser quase ao mesmo tempo, a depender somente das escolhas que fazemos, das cores que escolhemos, para cobrir a matéria fina do pensamento. Porque o que parece importar as vezes não tem importância própria. Mero pretexto, cenário ou trama, para exercitar o verdadeiro drama de se fazer escolhas e aprender com elas... O que será de nós, Ó minha senhora, que de escolha em escolha nos enredamos, se delas perdermos os seus sentidos, e esquecidos dos seus verdadeiros motivos, nos distraímos com aquilo que elas parecem ser? Sublime então o desafio de viver ao mesmo tempo sustentando o gosto das escolhas que fazemos e o fazer das escolhas que gostamos... Sendo ao mesmo tempo, ator e autor, da peça que vivendo escrevemos... Representando os sentidos que quaisquer outros, outros poderiam ser mas, que, sendo estes aqueles que escolhemos, nos fazem definitivamente ao vivê-los, eternamente responsáveis pelo que vivemos... O que será de nós minha senhora, é coisa que eu não sei... Mas eternamente nós seremos, responsáveis pelo que vivemos, e pelas escolhas que fazemos.
Esquinas da perdição. Uma estranha calma me invade quando beijo a esquina da sua boca, ali, onde os seus lábios vão se encontrar. E nela me deixo ficar demorado, sentido uma leve emoção, seguindo um fio que me leva ao limbo, ou as escadarias do céu, não sei muito bem, mas sei que é muito bom. Reside naquele ponto um mistério, que é o mistério das esquinas, do mesmo tipo que encontro quando topógrafo pelado com a vista larga demarco, desde o alto da colina, o falso risco que corta a sua virilha, e separa o travesseiro macio do púbis das duas avenidas largas e suaves onde fronteira não sei situar: são as sua coxas grossas que começam ou suas longas pernas que terminam? Amo essas suas esquinas, menina, oh, como as amo! Onde as coisas são, e ao mesmo tempo não são, e nelas gosto de estar. Amo essas suas confluências, lugares de maciez permanente suavidade de textura calor morno, quase molhado onde o liso e o doce convidam para a ruína do tempo e para a perda definitiva de qualquer perspectiva.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Que pena!
Tanta coisa que podia ser dita, podia.
Podia, mas não foi.
E ficamos assim sem dizer.
Para onde foram elas? As coisas todas,
tantas coisas que podiam ser ditas
e que nunca foram.
E ficamos assim desconhecidos, distantes,
inexistentes um para o outro,
sem que as coisas que pudessem ser ditas
tivessem tido a chance de mudar nossos destinos
transformar as nossas vidas.
Ficamos assim,
os mesmos que eramos antes.
Do mesmo lado da rua,
em diferentes poltronas do avião,
no embaraço do espaço apertado do elevador
na lenta fila para o ingresso do cinema.
Ficamos assim, você e eu, desconhecidos e distantes, os mesmos que eramos antes, com as palavras não ditas
pregadas na boca.
Sem dizer e sem conhecer
outras palavras.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Afaníase
Eu cavo cavaco seus ôcos. Faço buraco na busca do que não sei nem saber o que é.
Eu fuço focinho suas parte molhadas, mergulho no lodo mergulho eu todo na lama clara que sua cavidade destila. Eu inspiro e suspiro por entre os dentes gemidos loucos roucos sofreguidão... Eu quero não posso, te toco me acendo, te tenho na palma da mão. O fogo não passa grassa assa agoniza e consome solidão.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

É preciso imaginar Sísifo feliz!

Foram necessários quase cinqüenta anos para que eu pudesse me encontrar com aquilo que sem se saber desejo, eu sempre desejei ser. Foram necessários quase cinqüenta anos quanto tempo perdido, quanto tempo vivido para que eu pudesse, face a face, olhar para tudo o que vivi com os olhos conhecidos, de quem se encontra com um velho amigo. Enigma decifrado, resta-me sem nenhum louvor, sem nenhum favor, fazer-me responsável por tudo que fiz, por tudo que quis, e o que, por demais, não soube ou não suportei saber. Que fronteira inexorável, encontrar-me assim tão próximo de um ser, obra minha, que sendo aquilo que é, não pode tributar a outrem, as motivações que são só suas. Saber-me, entretanto, virtudes e danos, pequenas qualidades e abismais defeitos, não encerra balanço aberto, e tampouco me faz menos compelido aos atos como seria mais conveniente a um homem de quase cinqüenta anos.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

De quem será, cuidado? Fico sempre tão impressionado com o muito muito que se faz do pouco pouco que é dado. Do residir assombrado que germina assim, tão frágil semente ganhando vulto em solo adubado. De quem será, do semeador, do semeado? Vivo a pergunta do mérito, da relação entre os dois, Cuidado.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Fundo de Mulher

Retirem-se as crianças da sala e também aos puritanos pois o poema abaixo contem elementos que podem ofender sensibilidades moralistas
Boceta não tem fundo! Ensina-me, num fim de tarde, num café grego em Atenas, com elegancia uma amiga. Traduz sabedoria ancestral herdada do bom senso de um avô. Paciente, explica e esclarece, essa singela verdade, masculinamente ignorada, por nós, tantos e vários varões saltitantes de uma para outra buscadores dessa quimera o fundo fundo de uma mulher. Não tem fundo, insiste ela, não adianta procurar mulher é bicho ôco, todas elas e qualquer uma, ainda que nem sempre o saibam e finjam outras ignorar. Boceta é abismo e precipicio pra mergulhar com coragem sem ter medo de morrer. Não tem fundo. Quanto tempo perdido, reflito na pressa masculina de ali se instalar causados da ansiedade de fundo, no fundo da mulher não encontrar. Onde começa, onde acaba este ser túnel que se perfura todo dia ontem, hoje, amanhã num eterno recomeçar. Quanta ilusão destilada, quanto medo de errar quantas mulheres esquecidas distantes elas mesmas de sua verdade elementar. Não tem fundo ! Boceta não tem fundo, repete a amiga, não adianta procurar. Se acalmem todos os homens mulheres, não há porque se envergonhar não ter fundo não é defeito fonte do profundo mistério, impossivel, mulher decifrar.

domingo, 19 de novembro de 2006

A bailarina elegante
A bailarina sangra o coração sangra o seu e o meu, sangra o de muita gente mais. Sangra com a sua propria mão. A bailarina se castiga, mortifica-se, maltrata, consome-se em culpas por faltas que não cometeu. A bailarina quer perfeição.
Se envergonha pelos enganos alheios se aborrece com que lhe parece feio. Fica irritada ao espelho que revela, as falhas do ambicioso ideal. A bailarina sofre e sofre. Sofre e não aprende a lição. A bailarina imagina um rigor, rigor, que no mundo não tem. Elegante bailarina, mire nisso, mas mire com muita atenção;
no dizer de Balzac, elegância é parecer-se com aquilo que se é. Estimar suas perebas e suas feridas no pé.
Marinheiro Em cada mulher porto eu poderia ficar atracado por um ano inteiro ou descuidado por toda uma vida, tomando os ventos que não se repetem, no ritmo constante das marés. Em cada mulher porto,
ó marinheiro, existem tantos motivos vida inteira não seria bastante, para tudo conhecer e explorar, mil razões para ficar. Em cada mulher porto, tantos santuários, delicadezas sutis, lóbulos de orelhas, curvas de pescoços, planos e altos, planicies extensas de lento percorrer.
Sorrisos, caras e bocas, palavras, sons e humores, doçuras de menina, jeitos de mãe cuidando da gente, garras felinas que lavram o corpo, imprimindo marcas que não desaparecerão jamais. Em cada mulher porto, a ancora atracada geme gozos incontroláveis de um barco esquecido de sua sorte de navegar, olvidado das pelejas, tantas ondas a cortar. Em cada mulher porto a escolha decisão: desistir de ser barco fazer-se barro, encalhado até as ameias encher-se das caracas e no lodo amalgamar-se tornar-se uno com o fundo seco do mar. Ou partir, lançar-se ao mundo, soltar amarras, desfraldar velas, zarpar, zunir nas tempestades acoitado pelos elementos, vagarosamente deixar-se levar por calmarias e indolências num mar, silêncios profundos, que espelha e brilha, céu azul. O que ser barco nunca escolhe, marinheiro,
é rumar em destino a algum porto-lugar,
atavico desejo de se atracar. Que a barcos e portos, a portos e barcos, desde o tempo dos tempos, outra escolha não se oferece
e não conhecem outro drama que possam, outro, encenar.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Cúmplice

Devagar, sediciosa, silente,

escorregas, infiltras, escoas,

pelos orifícios de minha alma

e te aninhas, como claridade,

nos meus recantos mais obscuros...

Insistente, a tua palavra me chama e ecoa,

nos meus fundos mais fundos,abissais,

reverberando boas novas,

fazendo promessas de paz.

Que toda essa doçura que conjuras,

reverta em ti, força coragem,

bálsamo aos teus delicados pés.

Que tua semeadura seja fértil,

que o cansaço não te colha

e que, mesmo sem o merecer,

eu possa, de te receber, preciosa,

toda a luz que tu me trazes.

Beijo-te sempre com os beijos da minha boca,

digo-te sempre as palavras que são só para você

porque te beijo sempre

com os beijos que são só teus

e te falo sempre na paz

que também é tua.

sábado, 2 de setembro de 2006

Pastoreio Eu não guardo rebanhos, nem apascento cardumes de peixes (você sabe que eu os pesco, não adiantaria mentir) Tomo conta de duas ou três idéias, as poucas que tenho e que teimam em fugir logo quando eu as imploro e mais preciso delas... Não somente por isso, mas principalmente por esta razão, não posso ser poeta... Profeta talvez, quem sabe, de uma causa da liberdade ... (doce ironia justo eu o que mantenho cativas estas duas ou três idéias que de mim teimam em fugir) o canto de minha boca, assobia, entretanto, uma canção e se você parar para ouvi-la vai poder saber, talvez, o que anda pelo meu coração...
FLOR DA SECRETARIA Flor solitária por companhia clamas. Assim tão só jaz no jarro da secretaria. Presente de admirador fugaz que assim te quis refrataria. E no dati datilografar (digi digitar) voa em fantasias, ao trabalho se vendeu, a mercenária. E nem te percebe. Nem a ti nem a tua dor. Solitária. E complacente poeta um poema dedico-te. Reparo a dor que assim tão flor, tão só, sentes. Sofres a dor de ser flor. Flor solitária, de desatenta secretaria.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

ANTES DA RUÍNA FINAL... Jerusalém, Jerusalém, és hoje o corpo do próprio homem carregas no teu seio a praga da escuridão. Todo o facho se consome e só tu não te iluminas; perdida foste, desgarrada és, a vagar alienada, foges ao perdão. Jerusalém, Jerusalém, quão seduzida estás, compras e te vendes ao consumo e mergulha-te cada vez mais em sandices orgíacas em materialismos infernais. Fechas as portas a ti abertas ris e debochas do sagrado: apressa-te e cuida-te Jerusalém! Em breve para ti os portões estarão cerrados A blasfêmia mais vil gruda-te à boca como o visgo A perfídia te invade ignoras o mais tênue amor. Jerusalém Jerusalém, assim foi, assim será em teu ser danado que na insanidade persiste só a permanente e lacinante dor do estilete delgado conhecerás. Acorda Jerusalém ! Desperta neste ocaso do dia banha-te nas últimas réstias de luz: conquista a legitimidade de ser filha do Pai Que a Ele pouco importa que do inficentésimo instante, obreira de última hora, sejais. Jerusalém, Jerusalém neste último instante vislumbre a possibilidade da paz torna-te ao teu caminho e não peques mais.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Eu que amo tanto Eu que amo tanto a solidão, hoje abomino o vazio da sua falta ... Da falta que me faz saber que você existe, que você me ama e que você me quer. E que, por isso, hoje somente hoje, não corro, portanto, o risco de ser assim tragado por ela - a solidão - a quem amo tanto, e assim não ser hoje tão só somente só como um desejo sempre.

domingo, 30 de julho de 2006

BRASÍLIA 1979 No palácio reina o ditador geme no planalto a flor de concreto. O cerrado nunca dantes navegado se estremece em sua nudez descoberto. Nos versos minha conspiração de poeta. Distante, a revolta, no calor do povo, transpira. Aqui o poder tem o seu lugar paletós de chapas brancas burocratas de gravatas atam e matam por decreto, o novo: o louco criar de um povo.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

CRIATURA Para Fernando Pessoa

Fazer poesia para mim é quase me encontrar com Deus. Afinal não é Ele. dos poetas, o maior? Que os poetas falam de flores, vôos de pássaros, azuis de borboletas sois poentes e tudo mais. E quando são poetas tristes, falam de musas e da sua beleza, e tecem comparações com as coisas da natureza. E mesmo os poetas loucos, que hoje invadem a cidade e cantam coisas de guerra, em versos mal silabados, falam do homem; das suas dores. E vendo toda essa poesia, natural, triste ou louca, eu penso em Deus Criador, que glosando em mote divino tantos temas produziu, prá nós, poetas menores.

tempo sem sol Para Bertold Brecht Foi um tempo de crise, foi um tempo sem sol, foi um tempo sem dó. Quem o viveu é que pode saber. Os gestos bons se tomaram escassos. As palavras congeladas nas bocas. Fúria e confusão, rodopiavam as mentes. A desconfiança instaurou-se como regime dos homens. As crianças mudas, caladas, estampavam nos olhos, pavor. Muitos tiveram desejos de morrer, outros tantos morreram. Quantos pelos caminhos caídos amontoados como restos usados que não têm mais valor. As cinzas cobriram as árvores, nem lembrança das flores restou. O medo profundo, corroeu um resto de humanidade que teimava em ficar, toda memória de calor, de afeto ou ternura dissolveu-se num vapor frio, pegajoso e úmido que a tudo e a todos uniu, num cemitério geral. Foi um tempo de crise. Foi um tempo sem sol. Sem sol, sem esperança e sem dó.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

transverso Delicadas as fronteiras dos mundos em que habito e que, de um lado para o outro, sem perceber, transito. Neles as coisas podem ser e não ser, quase ao mesmo tempo, a depender somente das escolhas que fazemos, das cores que escolhemos para cobrir a matéria fina do pensamento. Porque o que parece importar, as vezes não tem importância própria. Mero pretexto, cenário ou trama, para exercitar o verdadeiro drama de se fazer escolhas e aprender com elas... O que será de nós, ó minha senhora, que de escolha em escolha nos enredamos, se delas perdemos os seus sentidos, e esquecidos dos seus verdadeiros motivos, nos distraímos com aquilo que elas parecem ser? Sublime então o desafio de viver, ao mesmo tempo sustentando, o gosto das escolhas que fazemos e o fazer das escolhas que gostamos... Sendo ao mesmo tempo, ator e autor, da peça que, vivendo, escrevemos... Representando os sentidos que, quaisquer outros, outros poderiam ser mas, que, sendo estes aqueles que escolhemos, nos fazem definitivamente ao vivê-los, eternamente responsáveis pelo que vivemos... O que será de nós minha senhora, é coisa que eu não sei... Mas eternamente nós seremos, responsáveis pelo que vivemos, e pelas escolhas que fazemos.

terça-feira, 11 de julho de 2006

LADAINHA Francisco dos farrapos meu bom santo, ilumina-me o meu caminho, ensina-me o amor do coração, ensina-me a falar aos passarinhos. Francisco dos farrapos meu bom santo, tu que se casaste com a pobreza ensina-me cortejar tão nobre dama, ensina-me a humildade e a nobreza. Francisco dos farrapos, Francisco roto e descalço, qual é o mistério que nos faz de todos iguais, de todos irmãos? Qual é o mistério, que doma a carne quando esta nos diz não? Francisco dos farrapos meu bom santo, Francisco roto e descalço que dos teus olhos irradias somente amor e bondade diga-me qual ë a batalha prá se conquistar a humildade? Se o meu coração te ouvisse mais que os ouvidos querem escutar, de te ouviria nesta hora, de tão contrito orar, Dizer-me da via tão simples na qual maltratastes teus pés. Nada querer. Não desejar. Na fé, a Deus se entregar. Mas meu coração não te ouve, não ouve, o que me tens prá falar os meus ouvidos não deixam de ti esperam resposta. Parado no mesmo lugar eu continuo a rezar. Francisco dos farrapos meu bom santo...
Um poemeto pateta. O poema, que pena! Não sabia Decidir: era clara ? era gema ? O que lhe fazia afinal, ser poema ? O poeta, Que pateta! Não sabia decidir : Era papo ? Era meta ? O que lhe fazia afinal, ser poeta ? Ema e Eta, as duas rimas assim coitadas, perdidas sem pó não sabiam pelas ruas andar nuas. Nem sabiam decidir: Poema ou poeta ? Talvez, quem sabe um poemeto pateta !

segunda-feira, 10 de julho de 2006

SANSSARA A gente brinca de roda. A roda roda. A roda brinca com a gente. A gente sobe. A gente desce. A roda brinca ate a gente cansar E a roda, só por gostar roda; não quer parar de brincar. Roda, Roda! E a gente a ajudar mesmo querendo parar, Um, dois, subiu, e treis, quatro desceu. De novo! Outra vez! Já! Da roda, correia e caçamba nossa força no rodar. _ Pare com isso menino! _Desce dai! Vai machucar... Mamãe e Papai a chamar. Menino surdo.. Menino burro... Pobre menino... Ele só não sabe como parar de brincar! Poesia que gera poesia... Surpresa boa quanda a poesia causa a leitora e a empurra para um post tao complementar... muito legal Nanda...muito bom Eu pedi, pedi, pedi.. pra roda parar de brincar porque depois que cansa perde a graça pra criança E aí grita-chora-berra-cala só quer o colo, não roda Mas aí Papai-do-Céu vem em sonho e diz: menina peralta, pediu pra brincar! E a menina pergunta "será?" Ela sabe que machuca, ela pede pra parar Tenta de todas as formas mas empurra sem querer É que a mulher-menina mais mulher do que menina mais menina que mulher não aprendeu a crescer. by nanda reboucas

sexta-feira, 7 de julho de 2006

ZA-ZEN Como criança incapacitada da fantasia e entediada com a monotonia do sempre igual brinquedo, num gesto de pouco pensar, lançei minhas coisas ao ar. E elas cairam: o preto no lugar do branco o azul, no do vermelho; o verde no do amarelo. E tudo teve um novo lugar. Brinquei, mas brinquei pouco. O gesto me deixou atento: uma ordem continuava a existir, proibindo o possível e sua mutabilidade. No ensaio de um gesto desesperado, lanço tudo de novo ao ar: Agora, j á! E descubro: O difícil não é mudar a ordem das coisas. Difícil é mantê-las no ar. Difícil é mudar as coisas da Ordem.
PRÓDIGO Eu. mineiro revelado, Nú, pelado! As montanhas que escondem MINAS não me escondem mais. Eu mineiro, dentro e fundo. Raso e descoberto; emergindo, emerso. Eu desmineirado, desmineirando. Cosmopolita, transcendo, traio e entrego o segredo das gentes gerais. Desato o nó, desfaço o tácito, anuncio em alto e bom som: MINAS, ó mundo; MINAS oculta o que não tem prá mostrar. MINAS oculta o seu vazio, o seu trágico e montanhoso VAZIO

quarta-feira, 5 de julho de 2006

NASCENTE A água de um olho geme, germina escorre, escoa. Empoça. A água de um olho sediciosa, silente forma por troça lagoa. A água de um olho escorre; esvai e no ventre da várzea se espalha, gigante e farta. E quem a vê assim no plácido da tarde nem imagina o olho, o olhosinho atoa, que cheio de manha enche a lagoa.
AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO São muitos os caminhos grande o perigo de se perder, em um volta da sombra ou no entardecer. São muitos os caminhos tramas, rodilhas, redil, redemoinhos vorazes, escondidos remansos de identificação sutil. São muitos os caminhos os para fora, exteriores e os outros de dentro emoções, sentimentos, humores São muitos os caminhos. Um só deles leva ao meu fim O perigo de me perder é que me faz sofrer assim...

domingo, 2 de julho de 2006

LAVADEIRAS (prá tia Helena) A água da lagoa lava, alveja, encardidos trapos finos lençóis. A água da lagoa lavra, gasta, dedos e mãos que nunca usaram anéis. A agua da lagoa leva lavadeiras derradeiras pedras, bacias e tintois. A água da lagoa lava, esfrega e apaga das memórias, presenças imemoriais. A água da lagoa, lavadeira passa, e ela fica no lugar.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

PELOS CAMINHOS DE MINAS... Para o que não conhece MINAS, cuidado ao se aventurar, MINAS tem muitos caminhos, nenhum deles vai dar no mar. MINAS é algo dentro, cercada como seus pastos e currais fechada como os seus garimpos profunda e escura como suas cisternas. MINAS é mais que um contorno no mapa. É menos que um punhado de serras. Mas não se engane o forasteiro, que esta matemática, só o mineiro sabe e pode conjugar. MINAS é mais. MINAS é menos. MINAS não e igual. E em um dos seus descaminhos, digo em tom de segrêdo MINAS é um câncer, a se multiplicar no peito de seus filhos.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Na calçada. É tão grande a distância que separa de mim, este homem miserável caído na calçada, que dorme, boca entreaberta, no canto escorre uma baba nojenta, que desce pela barba esbranquiçada, que, a anos, não conhece os cuidados de um barbeiro. É tão grande, e ao mesmo tempo tão pequena, a distância que separa a sua vida da minha que, olhando-o assim caído, chego a pensar que este homem sou eu. Que é minha a sua vida desmantelada, o seu cheiro azedo, que mistura urina e suor, descaso, abandono e falta de dó. Que são meus os seus sonhos desfeitos, a sua desesperança exposta e quem sabe, a sua decepção de amor. É tão grande, e tão pequena, essa distância imensa, que me separa dele e me protege de mim mesmo: do meu ímpeto suicida, de minha vontade intensa, desejo de abandonar tudo e me deixar ficar por aí, pelas ruas, pelas calçadas, com uma barba suja e mal cuidada, coração decepcionado, falta de vontade e o projeto de não ser senão um homem velho, pobre, abandonado e sujo, que dorme em uma calçada qualquer. É tão grande e tão pequena essa distância que me separa do homem deitado na calçada, que em seu sono, ele sonha - quem sabe - que um certo homem em vigília, parado e perplexo, se deteve e lhe olha na rua, querendo saber quem é. Pensando que é ele - o homem - quem dorme, no sem sentido de sua vida que lhe reserva, nessa noite, casa, conforto, lençóis limpos, um banho quente, toalhas e uma xícara de chá.
FLAGRANTE Para aquela lágrima escondida no canto do seu olho. Sólido. Concreto. Estático. Fotograficamente, te descubro, te retrato. Pedaço de sufoco, te flagrei! Sua imagem a pregarei em todos os postes e assim desmascarado, peste, a ninguém mais surpreenderás. Denunciado estás. Jurado de morte. Pedaço de sufoco, te flagrei!

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Comentários são bem vindos!

Voce pode. Voce deve. Você quer? Comentar é possível, viver não é impossivel! Para participar deste blog, voce pode comentar. Poste seu comentário clicando no texto que aparece abaixo das postagens assim : "posted by Marcus Matraga @ 11:36 PM 0 comments links to this post" Clique em comments. A familia penhorada agradece!
ADOLESCENTE Eu não escondo os meus pecados Desenho de um Crumb Gravuras eróticas de um Picasso Deles rio ou choro. E rindochorando revelo-os: Tropicais araras estridentes; loucos e desdenhosos desejos que na esquina surgindo; atropelam e assustam o distraído transeunte.

domingo, 25 de junho de 2006

BOIADA (A meu pai) A boiada invade a praça. Agitam-se gentes e janelas Marciais marcham sem graça a lagoa vão beber. São muitas cabeças tangidas floresta de chifres sem ritmo dolentemente á agua se inclinam: línguas sôfregas sovem num estranho ressonar. E ali se demoram no barro encravados como se quisessem ficar toda a tarde a beber, como se da agua esperassem que elas os pudessem reter. Mas o destino selado Sorve os condenados. La fora no alto É certo os esperam: Homens, Cavalos e ferros. Um estreito Curral. O trem da Central Um apito sinal Uma viagem final.

Balzac

"Elegancia es la ciencia de no hacer nada igual que los demás, pareciendo que se hace todo de la misma manera que ellos." "Un efecto esencial de la elegancia es ocultar sus medios"
A demissão do poeta. O poeta não é mais necessário. O poeta foi demitido. Cortes da reestruturação produtiva. O poeta é improdutivo. Não há mais vagas para poeta. Não há vagas no neoliberalismo. Não ha vagas no neocapitalismo. Não há vagas no neosocialismo. Não há vagas para o poeta no sistema. Em nenhum sistema . Em nenhum lugar do mundo. O poeta é improdutivo. O poeta foi demitido. O poeta não serve pra nada. Joguem o poeta no lixo. Joguem o lixo no poeta. Derramem no esgoto a sua poesia inutil. Dissolvam com ácidos todas as rimas possíveis. Sem poetas, rimas não servem para nada. Queimem todos os livros de poesia e abram uma garrafa de vinho. Um brinde à demisão do poeta! Brindemos à demissão do poeta. Brindemos cumplices ao fim da poesia. Poetas, rimas e livro de poesia não servem para nada. Brindemos ao poeta no lixo. Brindemos ao lixo da poesia.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Esforço I

Que a vida fosse só de mel de rapadura,

cama fofa e macieza.

Só descidas, sempre sombras no sol quente

agua fresca da bica,

batendo na testa da gente.

Rede armada na varanda,

pirão molinho, pra mode não forçar os dentes.

Somente risos e alegrias

numa festa do coração sempre contente.

Eu e ela. Ela e eu. Se nós num quizesse mais gente...

E se fosse desse jeito

e se assim desse modo fosse

eu ia logo pedir pró condutor:

_Moço, para esse mundo que eu quero descê !

Só pra mode, atraz dele corrê

e sonhá que um dia eu lhe vou alcançá ....

INDAGAÇÃO Serei poeta? Serei poeta com tão poucas palavras? Serei poeta com versos tão esparsos? Serei poeta com tão tímida poesia? Mas se não o fosse, o que mais seria? Profeta de um apocalipse urgente? Ator de uma cena censurada? Acrobata dos trapézios indizíveis? Um caminhante para o nada...? Ademais, com que metro se mede a poesia? De quantos paus-poemas se faz a canoa para a travessia? Sim, talvez poeta. Talvez um poeta minguado, de um tempo minguante, De minguadas emoções... Talvez nem isso, mergulhado na descrença, e já cansado das canções, somente um homem que procura. (Que a procura, neste tempo, justifica tantas coisas...) E quem sabe, num soluço final, nem mesmo este consolo... Um homem apenas ! Um homem de nada, de um nada profundo, portentoso e repleto de um inédito temor, gigantesca interrogação!

terça-feira, 20 de junho de 2006

TEIMOSIA Só o silêncio é absolutamente sincero e teimo em dizer-te que te amo Obstinadamente, teimo em dizer-te. Quando os teus ouvidos já não me podem ouvir. Quando a palavra já não tem mais poder. Quando o perdido me assombra em ecos profundos: a minha boca não cede e murmura. Quando dos corpos já esfriou o calor. Quando da tua boca flagela-me o teu não. Quando do encontro apenas a lembrança persiste. A minha boca desafia a razão e sussura. Contra mim e contra ti, contra o meu sim e o teu não, Contra a lógica implacável que em dor tão cruel separação presidiu; a minha boca rebela-se, e afoga-me em mentira. Meu amor eu te amo mil vezes eu te amo, insensatamente te digo: eu sigo te amando !

domingo, 18 de junho de 2006

requien por uma amizade em perigo !

Eu sou assim mesmo: dessimétrico! Entre a intenção e o gesto,uma avenida larga de vida me leva... E olhando para trás encabulado, te aceno, com esta tibieza que me faz flácido e que, no descuido, desaponta aos amigos. Eu não tenho desculpas, justificativas ou coisas que tais... Motivos eu até tenho. Não para fazer o que eu, não fazendo, faço! Mas para mil vezes, fazer o que não fiz. E então eu lhe pergunto: o que me resta fazer agora, se não o fiz quando o quis? A Inês já é morta? Estarei definitivamente condenado por este meu jeito danado que nem eu mesmo escolhi? Se sobrevivem-me amigos devo-lhes sempre a sua imerecida generosidade, dos cuidados que eu não tive, contas que jamais poderei pagar. Se o prego do teu coração-botequimainda tiver um espaço, um espaçozinho assim, mesmo que seja que seja bem pequeninim, apesar de tanta conta,que eu sei - e que você também sabe - que eu nunca hei de pagar: mais uma vez eu tropeço, mais uma vez eu te peço: arranje mais um lugarzinho para mim. Pendure mais essa! Por favor finja de novo que acredita que um dia eu vou tomar jeitoque eu viro gente direita que nunca mais vou te decepcionar... Não deixe morrer, não deixe matar. Insista, persista, sou devedor confesso: você nada tem a ganhar. Coloco-me em suas mãos:não me expulse do seu coração !Não deixa esta minha estranha amizade, cair no chão...! E suplicante te peço: bota mais uma pra mim, bote mais uma. Por favor, amiga, mais umazinha só!
MENINAS... Para Angela, Bela e Mirian São todas mulheres. Contam seus casos. Riem e brincam como meninas; Mas são todas mulheres. E seduzem e cativam. E convidam ao seu jogo predileto, brincar de transparência, sugerir revelação. E no faz de conta da ausência de segredos mulheres -moluscos guardam no útero fantasmas e medos. Medos de beira de rio. Fantasmas do tempo de avós. Meninas, são mulheres fortes. Altivas, extraem a sua força dos seus homens. Dos seus homens de ontem e de hoje. Dos homens com quem sonham e brincam, fazendo deles meninos, Maternais e incestuosas. Mulheres são meninas frágeis. Tem medo de escuro e das almas dos que já morreram. lhes assusta a solidão e a voragem do rio cheio, que lhes parece um castigo por suas tantas brincadeiras.. E driblam narciso que por natureza, em sua igualdade as fez rivais E seguem, como as águas do rio unidas em seu curso, Solidárias e cúmplices, de alegrias e dores, na corredeira dos casos que meninas-mulheres vão contando e brincando, displicentes em festa nas suas noites fartas, ao redor da mesa.
Fica assim não, menina... Pode entrar menina, pode entrar e fica assim não... Fica assim não, que não vale a pena. A vida é pequena, passa tão ligeira, e a boniteza dela, não tá no grosso da sua apresentação. Nos entremeios, que são poucos, e no fundo-fundo de tudo-tudo, é que mora, escondidinho, o gosto forte do porque viver. Mas as vezes é assim mesmo... Depende do jeito de se acordar. Se no sono, a alma se despregou do corpo e no sonho voou pra muito longe, andou por lugares muito bonitos, e fez tudo que tinha vontade de fazer, quando é de manhã, por certo, pró corpo ela não há de querer voltar... Então, a gente tem que encarnar ela de novo. Mandar ela com força, voltar pró cerne, do cerne, que é o dentro da gente, a partir de onde, a gente sabe mandar. Fica assim não menina, que não vale a pena. Pois não é a alma que é pequena. Mal criada e rebelde, isso, as vezes, ela é. As vezes. Pró nosso bem, ela é. Más, pequeno, pequeno mesmo, é assim, quase sempre, este mundo em que se faz nossa sina viver. Labutar todo dia, fazê lição e aprendê... Mundo estreito, mundo raso Mundo duído, mundo doidio. De pouca consideração. Por isso não há que se estranhar de que, as vezes, a alma não queira ficar. A alma ? A alma, só fica querendo voar, viver no que é bem bom, que é bom demais. Espairecer e espraiar. Que é disso que alma sabe, que é de disso, que a alma entende. Que é disso que a alma gosta, a alma, menina, a alma só quer sonhar!

domingo, 11 de junho de 2006

?Adonde está golondrina? Adonde está golondrina Adonde fue su vuelo levar Que haces muy triste mi invernó Y tengo ganas de llorar. Yo te quiero mucho mi pajarito lindo. A mi, me gusta verlo volar. Si vuela en otras tierras Vuelve y me vengas narrar.

terça-feira, 6 de junho de 2006

SITUAÇÃO DELICADA As mulheres que se me oferecem quando o meu coração não as pediu, invadem o meu ser e me enchem de medo de não saber recusá-las, sem dardejar suas vaidades. Que as mulheres, são flores em sua grande variedade, e mesmo quando são rústicas são ao meu tato, delicadas.
E dá-me a vontade de ali não estar de ser uma outra pessoa que não eu, a lhes dizer este “não” verdade . As mulheres que se me oferecem quando o meu coração não as pediu deixam-me atônito e aflito, inseguro de minha capacidade de recusá-las sem magoar seu coração E transmitir-lhes, com ternura, todo o respeito e a afeição que sei por elas sentir.
E confesso que se assim acontece não é por mérito de coração bondoso ou qualidades que eu sei não ter. É que a mulher magoada tem força que me assusta, e não se guia pela razão. A sua alma sensível por outras bússolas se orienta que ao meu ser masculino desnorteia o entendimento. Transmutam o amor em ódio o carinho em agressão. Das mulheres que se me oferecem quando o meu coração não as pediu, Deus me livre da sua paixão.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

démocles Uma espada pende sobre minha cabeça Presa tão somente por um fino fio de teu cabelo Que o fio seja forte não tenho certeza, Não que em ti, não resida confiança, Mas cabelo é cabelo, ensina a natureza. Quando a duvida te assaltar de novo Ponha cadeados nas portas, trancas nas janelas Quando o vento é muito forte, recomenda o marujo, melhor é recolher a vela. Não te exponhas a tão fortes tempestades Não submetas a provas tão graves O casco frágil de forte embarcação. Conselhos, o mundo te oferece, de sobras. Outra coisa, é se os considera, ou não. Que seja removida esta espada, que tanto risco me causa. E que sossego e descanso possa ter em ti, esse fio do teu cabelo. Suster assim com tanto risco, desgraça que pende sobre quem tanto te ama Mesmo em caso que ele muito mereça Faz doer em ti também, e não apenas num fio, Mas em todos os fios de sua cabeça.

domingo, 4 de junho de 2006

No te olvidaré Guadalajara. En una noche baile contigo, muchacha Tuvo tu cuerpo bien cerca del mío Y lo apreté. Y pude sentir el ritmo de la canción en su respiración, Y en un corazón disparado. Mas todo eso se paso muy rápido. Y ya, en el momento siguiente, Tu estuviera em mis braços Y ya no se encuentras más. Y todo lo que mi restaba era apenas un bueno recuerdo un dulce olor de rosas Que yo no puedo olvidar. Una voz rara y una sonrisa enigmática. La fuera del hogar, en la calle, un perro volvia la basura, en noche con luna dispersa y pocas estrellas. Un hombre borracho caminaba tortuoso con esperanzas inútiles de legar con brevedad Al encuentro del conforto, en su casa.
Y una bella mujer con voz muy rara cantaba lejos una canción:
Yo no puedo olvidarte, Guadalajara.