Nua pergunta.
Você, diante de mim,
parada nua, me interpela.
Quer saber em sua nudez perplexa,
diante de mim, atônito,
do que eu nunca soube,
jamais.
O desejo que escorre
dos seus olhos
desce doce
e empoça no umbigo.
Pinga em gotas de perguntas
que eu não sei responder.
Percorro ansioso com meus olhos,
as suas formas,
com as pontas dos dedos,
tateio o risco das letras
que o seu corpo desenha
e que não sei decifrar.
Percorrem minhas narinas
todos os cheiros
que em verdes pastagens
me convidam
para em ti descansar.
Bebo em tua fonte.
Deito a minha língua
no teu cantil.
Sorvo sôfrego, delicias
que nem sei nominar.
O que queres de mim mulher,
mais do que te posso dar ?
Se o que me perguntas
é o que não sabes responder,
por que estimas que eu tenha
para ti, resposta a oferecer?
Pois de tudo que pude saber,
o teu desejo não cala,
mas também não sabe falar.
sábado, 10 de março de 2007
Nua pergunta.
Você, diante de mim,
parada nua, me interpela.
Quer saber em sua nudez perplexa,
diante de mim, atônito,
do que eu nunca soube,
jamais.
O desejo que escorre
dos seus olhos
desce doce
e empoça no umbigo.
Pinga em gotas de perguntas
que eu não sei responder.
Percorro ansioso com meus olhos,
as suas formas,
com as pontas dos dedos,
tateio o risco das letras
que o seu corpo desenha
e que não sei decifrar.
Percorrem minhas narinas
todos os cheiros
que em verdes pastagens
me convidam
para em ti descansar.
Bebo em tua fonte.
Deito a minha língua
no teu cantil.
Sorvo sôfrego, delicias
que nem sei nominar.
O que queres de mim mulher,
mais do que te posso dar ?
Se o que me perguntas
é o que não sabes responder,
por que estimas que eu tenha
para ti, resposta a oferecer?
Pois de tudo que pude saber,
o teu desejo não cala,
mas também não sabe falar.
domingo, 4 de março de 2007
quinta-feira, 11 de janeiro de 2007
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
É preciso imaginar Sísifo feliz!
Foram necessários
quase cinqüenta anos
para que eu pudesse
me encontrar com aquilo
que sem se saber desejo,
eu sempre desejei ser.
Foram necessários
quase cinqüenta anos
quanto tempo perdido,
quanto tempo vivido
para que eu pudesse,
face a face,
olhar para tudo o que vivi
com os olhos conhecidos,
de quem se encontra
com um velho amigo.
Enigma decifrado, resta-me
sem nenhum louvor,
sem nenhum favor,
fazer-me responsável
por tudo que fiz,
por tudo que quis,
e o que, por demais,
não soube
ou não suportei saber.
Que fronteira inexorável,
encontrar-me assim
tão próximo
de um ser, obra minha,
que sendo aquilo que é,
não pode tributar a outrem,
as motivações que são só suas.
Saber-me, entretanto,
virtudes e danos,
pequenas qualidades
e abismais defeitos,
não encerra balanço aberto,
e tampouco me faz
menos compelido aos atos
como seria mais conveniente
a um homem
de quase cinqüenta anos.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
sexta-feira, 15 de dezembro de 2006
Fundo de Mulher
Retirem-se as crianças da sala e também aos puritanos
pois o poema abaixo contem elementos que podem
ofender sensibilidades moralistas
domingo, 19 de novembro de 2006
Marinheiro
Em cada mulher porto
eu poderia ficar atracado
por um ano inteiro ou descuidado
por toda uma vida,
tomando os ventos
que não se repetem,
no ritmo constante das marés.
Em cada mulher porto,terça-feira, 3 de outubro de 2006
Cúmplice
Devagar, sediciosa, silente,
escorregas, infiltras, escoas,
pelos orifícios de minha alma
e te aninhas, como claridade,
nos meus recantos mais obscuros...
Insistente, a tua palavra me chama e ecoa,
nos meus fundos mais fundos,abissais,
reverberando boas novas,
fazendo promessas de paz.
Que toda essa doçura que conjuras,
reverta em ti, força coragem,
bálsamo aos teus delicados pés.
Que tua semeadura seja fértil,
que o cansaço não te colha
e que, mesmo sem o merecer,
eu possa, de te receber, preciosa,
toda a luz que tu me trazes.
Beijo-te sempre com os beijos da minha boca,
digo-te sempre as palavras que são só para você
porque te beijo sempre
com os beijos que são só teus
e te falo sempre na paz
que também é tua.
sábado, 2 de setembro de 2006
Pastoreio
Eu não guardo rebanhos,
nem apascento cardumes de peixes
(você sabe que eu os pesco, não adiantaria mentir)
Tomo conta de duas ou três idéias,
as poucas que tenho
e que teimam em fugir
logo quando eu as imploro e mais preciso delas...
Não somente por isso, mas
principalmente por esta razão,
não posso ser poeta...
Profeta talvez, quem sabe, de uma causa da liberdade ...
(doce ironia
justo eu o que mantenho cativas
estas duas ou três idéias
que de mim teimam em fugir)
o canto de minha boca,
assobia, entretanto, uma canção
e se você parar para ouvi-la
vai poder saber, talvez, o que anda pelo meu coração...
FLOR DA SECRETARIA
Flor solitária por companhia clamas.
Assim tão só jaz no jarro da secretaria.
Presente de admirador fugaz
que assim te quis refrataria.
E no dati datilografar (digi digitar)
voa em fantasias,
ao trabalho se vendeu, a mercenária.
E nem te percebe. Nem a ti
nem a tua dor. Solitária.
E complacente poeta
um poema dedico-te.
Reparo a dor que assim tão flor,
tão só, sentes.
Sofres a dor de ser flor.
Flor solitária, de desatenta secretaria.
terça-feira, 15 de agosto de 2006
quarta-feira, 9 de agosto de 2006
Eu que amo tanto
Eu que amo tanto
a solidão,
hoje abomino
o vazio da sua falta ...
Da falta que me faz
saber que você existe,
que você me ama
e que você me quer.
E que, por isso, hoje
somente hoje,
não corro,
portanto, o risco
de ser assim tragado
por ela - a solidão - a quem amo tanto,
e assim não ser
hoje tão só somente só
como um desejo sempre.
domingo, 30 de julho de 2006
BRASÍLIA 1979
No palácio reina o ditador
geme no planalto a flor de concreto.
O cerrado nunca dantes navegado
se estremece em sua nudez descoberto.
Nos versos minha conspiração de poeta.
Distante, a revolta, no calor do povo, transpira.
Aqui o poder tem o seu lugar
paletós de chapas brancas
burocratas de gravatas
atam e matam por decreto,
o novo: o louco criar de um povo.
sexta-feira, 28 de julho de 2006
CRIATURA Para Fernando Pessoa
Fazer poesia para mim é quase me encontrar com Deus. Afinal não é Ele. dos poetas, o maior? Que os poetas falam de flores, vôos de pássaros, azuis de borboletas sois poentes e tudo mais. E quando são poetas tristes, falam de musas e da sua beleza, e tecem comparações com as coisas da natureza. E mesmo os poetas loucos, que hoje invadem a cidade e cantam coisas de guerra, em versos mal silabados, falam do homem; das suas dores. E vendo toda essa poesia, natural, triste ou louca, eu penso em Deus Criador, que glosando em mote divino tantos temas produziu, prá nós, poetas menores.
tempo sem sol
Para Bertold Brecht
Foi um tempo de crise,
foi um tempo sem sol,
foi um tempo sem dó.
Quem o viveu é que pode saber.
Os gestos bons se tomaram escassos.
As palavras congeladas nas bocas.
Fúria e confusão, rodopiavam as mentes.
A desconfiança instaurou-se como regime dos homens.
As crianças mudas, caladas, estampavam nos olhos, pavor.
Muitos tiveram desejos de morrer,
outros tantos morreram.
Quantos pelos caminhos caídos
amontoados como restos usados
que não têm mais valor.
As cinzas cobriram as árvores,
nem lembrança das flores restou.
O medo profundo, corroeu um resto de humanidade
que teimava em ficar,
toda memória de calor, de afeto ou ternura
dissolveu-se num vapor frio, pegajoso e úmido
que a tudo e a todos uniu,
num cemitério geral.
Foi um tempo de crise.
Foi um tempo sem sol.
Sem sol, sem esperança e sem dó.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
transverso Delicadas as fronteiras dos mundos em que habito e que, de um lado para o outro, sem perceber, transito. Neles as coisas podem ser e não ser, quase ao mesmo tempo, a depender somente das escolhas que fazemos, das cores que escolhemos para cobrir a matéria fina do pensamento. Porque o que parece importar, as vezes não tem importância própria. Mero pretexto, cenário ou trama, para exercitar o verdadeiro drama de se fazer escolhas e aprender com elas... O que será de nós, ó minha senhora, que de escolha em escolha nos enredamos, se delas perdemos os seus sentidos, e esquecidos dos seus verdadeiros motivos, nos distraímos com aquilo que elas parecem ser? Sublime então o desafio de viver, ao mesmo tempo sustentando, o gosto das escolhas que fazemos e o fazer das escolhas que gostamos... Sendo ao mesmo tempo, ator e autor, da peça que, vivendo, escrevemos... Representando os sentidos que, quaisquer outros, outros poderiam ser mas, que, sendo estes aqueles que escolhemos, nos fazem definitivamente ao vivê-los, eternamente responsáveis pelo que vivemos... O que será de nós minha senhora, é coisa que eu não sei... Mas eternamente nós seremos, responsáveis pelo que vivemos, e pelas escolhas que fazemos.
terça-feira, 11 de julho de 2006
LADAINHA
Francisco dos farrapos
meu bom santo,
ilumina-me o meu caminho,
ensina-me o amor do coração,
ensina-me a falar aos passarinhos.
Francisco dos farrapos
meu bom santo,
tu que se casaste com a pobreza
ensina-me cortejar tão nobre dama,
ensina-me a humildade e a nobreza.
Francisco dos farrapos,
Francisco roto e descalço,
qual é o mistério que nos faz
de todos iguais, de todos irmãos?
Qual é o mistério, que doma a carne
quando esta nos diz não?
Francisco dos farrapos
meu bom santo,
Francisco roto e descalço
que dos teus olhos irradias
somente amor e bondade
diga-me qual ë a batalha
prá se conquistar a humildade?
Se o meu coração te ouvisse
mais que os ouvidos querem escutar,
de te ouviria nesta hora,
de tão contrito orar,
Dizer-me da via tão simples
na qual maltratastes teus pés.
Nada querer. Não desejar.
Na fé, a Deus se entregar.
Mas meu coração não te ouve,
não ouve, o que me tens prá falar
os meus ouvidos não deixam
de ti esperam resposta.
Parado no mesmo lugar
eu continuo a rezar.
Francisco dos farrapos
meu bom santo...
Um poemeto pateta.
O poema,
que pena!
Não sabia
Decidir:
era clara ?
era gema ?
O que lhe fazia
afinal, ser poema ?
O poeta,
Que pateta!
Não sabia
decidir :
Era papo ?
Era meta ?
O que lhe fazia
afinal, ser poeta ?
Ema e Eta,
as duas rimas
assim coitadas,
perdidas sem pó
não sabiam
pelas ruas
andar nuas.
Nem sabiam
decidir:
Poema ou poeta ?
Talvez, quem sabe
um poemeto pateta !
segunda-feira, 10 de julho de 2006
SANSSARA
A gente brinca de roda.
A roda roda.
A roda brinca com a gente.
A gente sobe.
A gente desce.
A roda brinca ate a gente cansar
E a roda, só por gostar roda;
não quer parar de brincar.
Roda, Roda!
E a gente a ajudar
mesmo querendo parar,
Um, dois, subiu, e treis, quatro
desceu. De novo! Outra vez! Já!
Da roda, correia e caçamba
nossa força no rodar.
_ Pare com isso menino!
_Desce dai! Vai machucar...
Mamãe e Papai a chamar.
Menino surdo.. Menino burro...
Pobre menino... Ele só não sabe
como parar de brincar!
Poesia que gera poesia...
Surpresa boa quanda a poesia
causa a leitora e a empurra
para um post tao complementar...
muito legal Nanda...muito bom
Eu pedi, pedi, pedi..
pra roda parar de brincar
porque depois que cansa
perde a graça pra criança
E aí grita-chora-berra-cala
só quer o colo, não roda
Mas aí Papai-do-Céu vem em sonho e diz:
menina peralta, pediu pra brincar!
E a menina pergunta "será?"
Ela sabe que machuca,
ela pede pra parar
Tenta de todas as formas
mas empurra sem querer
É que a mulher-menina
mais mulher do que menina
mais menina que mulher
não aprendeu a crescer.
by nanda reboucas
sexta-feira, 7 de julho de 2006
ZA-ZEN
Como criança incapacitada da fantasia
e entediada com a monotonia do
sempre igual brinquedo,
num gesto de pouco pensar, lançei
minhas coisas ao ar.
E elas cairam:
o preto no lugar do branco
o azul, no do vermelho;
o verde no do amarelo.
E tudo teve um novo lugar.
Brinquei, mas brinquei pouco.
O gesto me deixou atento:
uma ordem continuava a existir,
proibindo o possível e sua
mutabilidade.
No ensaio de um gesto desesperado,
lanço tudo de novo ao ar:
Agora, j á!
E descubro:
O difícil não é mudar a ordem das coisas.
Difícil é mantê-las no ar.
Difícil é mudar as coisas da Ordem.
PRÓDIGO
Eu. mineiro revelado,
Nú, pelado!
As montanhas que escondem MINAS
não me escondem mais.
Eu mineiro, dentro e fundo.
Raso e descoberto; emergindo, emerso.
Eu desmineirado, desmineirando.
Cosmopolita, transcendo,
traio e entrego
o segredo das gentes gerais.
Desato o nó,
desfaço o tácito,
anuncio em alto e bom som:
MINAS, ó mundo;
MINAS oculta o que não tem prá mostrar.
MINAS oculta o seu vazio,
o seu trágico e montanhoso VAZIO
quarta-feira, 5 de julho de 2006
NASCENTE
A água de um olho
geme, germina
escorre, escoa.
Empoça.
A água de um olho
sediciosa, silente
forma por troça
lagoa.
A água de um olho
escorre; esvai
e no ventre da várzea
se espalha,
gigante e farta.
E quem a vê assim
no plácido da tarde
nem imagina o olho,
o olhosinho atoa,
que cheio de manha
enche a lagoa.
AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO
São muitos os caminhos
grande o perigo de se perder,
em um volta da sombra
ou no entardecer.
São muitos os caminhos
tramas, rodilhas, redil,
redemoinhos vorazes,
escondidos remansos
de identificação sutil.
São muitos os caminhos
os para fora, exteriores
e os outros de dentro
emoções, sentimentos, humores
São muitos os caminhos.
Um só deles leva ao meu fim
O perigo de me perder
é que me faz sofrer assim...
domingo, 2 de julho de 2006
LAVADEIRAS
(prá tia Helena)
A água da lagoa lava,
alveja, encardidos trapos
finos lençóis.
A água da lagoa lavra,
gasta, dedos e mãos
que nunca usaram anéis.
A agua da lagoa leva
lavadeiras derradeiras
pedras, bacias e tintois.
A água da lagoa lava,
esfrega e apaga
das memórias,
presenças imemoriais.
A água da lagoa,
lavadeira passa,
e ela fica no lugar.
quarta-feira, 28 de junho de 2006
PELOS CAMINHOS DE MINAS...
Para o que não conhece MINAS,
cuidado ao se aventurar,
MINAS tem muitos caminhos,
nenhum deles vai dar no mar.
MINAS é algo dentro,
cercada como seus pastos e currais
fechada como os seus garimpos
profunda e escura como suas cisternas.
MINAS é mais que um contorno no mapa.
É menos que um punhado de serras.
Mas não se engane o forasteiro,
que esta matemática, só o mineiro
sabe e pode conjugar.
MINAS é mais.
MINAS é menos.
MINAS não e igual.
E em um dos seus descaminhos,
digo em tom de segrêdo
MINAS é um câncer,
a se multiplicar
no peito de seus filhos.
terça-feira, 27 de junho de 2006
Na calçada.
É tão grande a distância que separa
de mim, este homem miserável
caído na calçada, que dorme,
boca entreaberta, no canto escorre
uma baba nojenta,
que desce pela barba esbranquiçada,
que, a anos, não conhece
os cuidados de um barbeiro.
É tão grande,
e ao mesmo tempo tão pequena,
a distância que separa
a sua vida da minha
que, olhando-o assim caído,
chego a pensar que este homem sou eu.
Que é minha a sua vida desmantelada,
o seu cheiro azedo, que mistura urina e suor,
descaso, abandono e falta de dó.
Que são meus os seus sonhos desfeitos,
a sua desesperança exposta
e quem sabe, a sua decepção de amor.
É tão grande, e tão pequena,
essa distância imensa,
que me separa dele
e me protege de mim mesmo:
do meu ímpeto suicida,
de minha vontade intensa,
desejo de abandonar tudo
e me deixar ficar por aí,
pelas ruas, pelas calçadas,
com uma barba suja e mal cuidada,
coração decepcionado,
falta de vontade e o projeto
de não ser senão um homem velho,
pobre, abandonado e sujo,
que dorme em uma calçada qualquer.
É tão grande e tão pequena
essa distância que me separa
do homem deitado na calçada,
que em seu sono, ele sonha - quem sabe -
que um certo homem em vigília,
parado e perplexo,
se deteve e lhe olha na rua,
querendo saber quem é.
Pensando que é ele - o homem - quem dorme,
no sem sentido de sua vida
que lhe reserva, nessa noite,
casa, conforto, lençóis limpos,
um banho quente,
toalhas e uma xícara de chá.
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Comentários são bem vindos!
domingo, 25 de junho de 2006
BOIADA
(A meu pai)
A boiada invade a praça.
Agitam-se gentes e janelas
Marciais marcham sem graça
a lagoa vão beber.
São muitas cabeças tangidas
floresta de chifres sem ritmo
dolentemente á agua se inclinam:
línguas sôfregas
sovem num estranho ressonar.
E ali se demoram
no barro encravados
como se quisessem ficar
toda a tarde a beber,
como se da agua esperassem
que elas os pudessem reter.
Mas o destino selado
Sorve os condenados.
La fora no alto
É certo os esperam:
Homens, Cavalos e ferros.
Um estreito Curral.
O trem da Central
Um apito sinal
Uma viagem final.
Balzac
quarta-feira, 21 de junho de 2006
Esforço I
Que a vida fosse só de mel de rapadura,
cama fofa e macieza.
Só descidas, sempre sombras no sol quente
agua fresca da bica,
batendo na testa da gente.
Rede armada na varanda,
pirão molinho, pra mode não forçar os dentes.
Somente risos e alegrias
numa festa do coração sempre contente.
Eu e ela. Ela e eu. Se nós num quizesse mais gente...
E se fosse desse jeito
e se assim desse modo fosse
eu ia logo pedir pró condutor:
_Moço, para esse mundo que eu quero descê !
Só pra mode, atraz dele corrê
e sonhá que um dia eu lhe vou alcançá ....
INDAGAÇÃO
Serei poeta?
Serei poeta com tão poucas palavras?
Serei poeta com versos tão esparsos?
Serei poeta com tão tímida poesia?
Mas se não o fosse, o que mais seria?
Profeta de um apocalipse urgente?
Ator de uma cena censurada?
Acrobata dos trapézios indizíveis?
Um caminhante para o nada...?
Ademais, com que metro
se mede a poesia?
De quantos paus-poemas
se faz a canoa para a travessia?
Sim, talvez poeta.
Talvez um poeta minguado,
de um tempo minguante,
De minguadas emoções...
Talvez nem isso,
mergulhado na descrença,
e já cansado das canções,
somente um homem que procura.
(Que a procura, neste tempo,
justifica tantas coisas...)
E quem sabe, num soluço final,
nem mesmo este consolo...
Um homem apenas !
Um homem de nada,
de um nada profundo,
portentoso e repleto de
um inédito temor,
gigantesca interrogação!
terça-feira, 20 de junho de 2006
TEIMOSIA
Só o silêncio é absolutamente
sincero e teimo em dizer-te
que te amo
Obstinadamente, teimo em dizer-te.
Quando os teus ouvidos já não me podem ouvir.
Quando a palavra já não tem mais poder.
Quando o perdido me assombra
em ecos profundos:
a minha boca não cede e murmura.
Quando dos corpos já esfriou o calor.
Quando da tua boca flagela-me
o teu não.
Quando do encontro apenas
a lembrança persiste.
A minha boca desafia a razão
e sussura.
Contra mim e contra ti,
contra o meu sim e o teu não,
Contra a lógica implacável
que em dor tão cruel
separação presidiu;
a minha boca rebela-se,
e afoga-me em mentira.
Meu amor eu te amo
mil vezes eu te amo,
insensatamente te digo:
eu sigo te amando !
domingo, 18 de junho de 2006
requien por uma amizade em perigo !
Eu sou assim mesmo: dessimétrico!
Entre a intenção e o gesto,uma avenida larga de vida me leva... E olhando para trás encabulado, te aceno, com esta tibieza que me faz flácido e que, no descuido, desaponta aos amigos.
Eu não tenho desculpas, justificativas ou coisas que tais... Motivos eu até tenho. Não para fazer o que eu, não fazendo, faço! Mas para mil vezes, fazer o que não fiz. E então eu lhe pergunto: o que me resta fazer agora, se não o fiz quando o quis? A Inês já é morta? Estarei definitivamente condenado por este meu jeito danado que nem eu mesmo escolhi? Se sobrevivem-me amigos devo-lhes sempre a sua imerecida generosidade, dos cuidados que eu não tive, contas que jamais poderei pagar. Se o prego do teu coração-botequimainda tiver um espaço, um espaçozinho assim, mesmo que seja que seja bem pequeninim, apesar de tanta conta,que eu sei - e que você também sabe - que eu nunca hei de pagar: mais uma vez eu tropeço, mais uma vez eu te peço: arranje mais um lugarzinho para mim. Pendure mais essa! Por favor finja de novo que acredita que um dia eu vou tomar jeitoque eu viro gente direita que nunca mais vou te decepcionar... Não deixe morrer, não deixe matar. Insista, persista, sou devedor confesso: você nada tem a ganhar. Coloco-me em suas mãos:não me expulse do seu coração !Não deixa esta minha estranha amizade, cair no chão...! E suplicante te peço: bota mais uma pra mim, bote mais uma. Por favor, amiga, mais umazinha só!
Para Angela, Bela e Mirian
São todas mulheres.
Contam seus casos.
Riem e brincam como meninas;
Mas são todas mulheres.
E seduzem e cativam.
E convidam ao seu jogo predileto,
brincar de transparência,
sugerir revelação.
E no faz de conta
da ausência de segredos
mulheres -moluscos
guardam no útero
fantasmas e medos.
Medos de beira de rio.
Fantasmas do tempo de avós.
Meninas, são mulheres fortes.
Altivas, extraem a sua força
dos seus homens.
Dos seus homens de ontem
e de hoje. Dos homens
com quem sonham e brincam,
fazendo deles meninos,
Maternais e incestuosas.
Mulheres são meninas frágeis.
Tem medo de escuro
e das almas dos que já morreram.
lhes assusta a solidão
e a voragem do rio cheio,
que lhes parece um castigo
por suas tantas brincadeiras..
E driblam narciso
que por natureza,
em sua igualdade as fez rivais
E seguem,
como as águas do rio
unidas em seu curso,
Solidárias e cúmplices,
de alegrias e dores,
na corredeira dos casos
que meninas-mulheres
vão contando e brincando,
displicentes em festa
nas suas noites fartas,
ao redor da mesa.
Fica assim não, menina...
Pode entrar menina,
pode entrar e fica assim não...
Fica assim não, que não vale a pena.
A vida é pequena, passa tão ligeira,
e a boniteza dela, não tá no grosso
da sua apresentação.
Nos entremeios,
que são poucos,
e no fundo-fundo de tudo-tudo,
é que mora, escondidinho,
o gosto forte do porque viver.
Mas as vezes é assim mesmo...
Depende do jeito de se acordar.
Se no sono, a alma se despregou do corpo
e no sonho voou pra muito longe,
andou por lugares muito bonitos,
e fez tudo que tinha vontade de fazer,
quando é de manhã, por certo,
pró corpo ela não há de querer voltar...
Então, a gente tem que encarnar ela de novo.
Mandar ela com força, voltar pró cerne,
do cerne, que é o dentro da gente,
a partir de onde, a gente sabe mandar.
Fica assim não menina,
que não vale a pena.
Pois não é a alma que é pequena.
Mal criada e rebelde, isso, as vezes, ela é.
As vezes. Pró nosso bem, ela é.
Más, pequeno, pequeno mesmo,
é assim, quase sempre, este mundo
em que se faz nossa sina viver.
Labutar todo dia,
fazê lição e aprendê...
Mundo estreito, mundo raso
Mundo duído, mundo doidio.
De pouca consideração.
Por isso não há que se estranhar
de que, as vezes, a alma não queira ficar.
A alma ? A alma, só fica querendo voar,
viver no que é bem bom, que é bom demais.
Espairecer e espraiar.
Que é disso que alma sabe,
que é de disso, que a alma entende.
Que é disso que a alma gosta,
a alma, menina, a alma só quer
sonhar!
domingo, 11 de junho de 2006
terça-feira, 6 de junho de 2006
segunda-feira, 5 de junho de 2006
domingo, 4 de junho de 2006





