terça-feira, 27 de junho de 2006

Na calçada. É tão grande a distância que separa de mim, este homem miserável caído na calçada, que dorme, boca entreaberta, no canto escorre uma baba nojenta, que desce pela barba esbranquiçada, que, a anos, não conhece os cuidados de um barbeiro. É tão grande, e ao mesmo tempo tão pequena, a distância que separa a sua vida da minha que, olhando-o assim caído, chego a pensar que este homem sou eu. Que é minha a sua vida desmantelada, o seu cheiro azedo, que mistura urina e suor, descaso, abandono e falta de dó. Que são meus os seus sonhos desfeitos, a sua desesperança exposta e quem sabe, a sua decepção de amor. É tão grande, e tão pequena, essa distância imensa, que me separa dele e me protege de mim mesmo: do meu ímpeto suicida, de minha vontade intensa, desejo de abandonar tudo e me deixar ficar por aí, pelas ruas, pelas calçadas, com uma barba suja e mal cuidada, coração decepcionado, falta de vontade e o projeto de não ser senão um homem velho, pobre, abandonado e sujo, que dorme em uma calçada qualquer. É tão grande e tão pequena essa distância que me separa do homem deitado na calçada, que em seu sono, ele sonha - quem sabe - que um certo homem em vigília, parado e perplexo, se deteve e lhe olha na rua, querendo saber quem é. Pensando que é ele - o homem - quem dorme, no sem sentido de sua vida que lhe reserva, nessa noite, casa, conforto, lençóis limpos, um banho quente, toalhas e uma xícara de chá.

Um comentário:

fahrenheit disse...

Parabéns...este é um cenário que vemos todos os dias e, possuídos ou não pela pressa em chegar/fazer que todo paulistano tem, nos passa desapercebido na rotina...e encontramos o visual do que deixamos de ver neste texto.
Magnífico! Parabéns!
Melini