quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Que pena!
Tanta coisa que podia ser dita, podia.
Podia, mas não foi.
E ficamos assim sem dizer.
Para onde foram elas? As coisas todas,
tantas coisas que podiam ser ditas
e que nunca foram.
E ficamos assim desconhecidos, distantes,
inexistentes um para o outro,
sem que as coisas que pudessem ser ditas
tivessem tido a chance de mudar nossos destinos
transformar as nossas vidas.
Ficamos assim,
os mesmos que eramos antes.
Do mesmo lado da rua,
em diferentes poltronas do avião,
no embaraço do espaço apertado do elevador
na lenta fila para o ingresso do cinema.
Ficamos assim, você e eu, desconhecidos e distantes, os mesmos que eramos antes, com as palavras não ditas
pregadas na boca.
Sem dizer e sem conhecer
outras palavras.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Afaníase
Eu cavo cavaco seus ôcos. Faço buraco na busca do que não sei nem saber o que é.
Eu fuço focinho suas parte molhadas, mergulho no lodo mergulho eu todo na lama clara que sua cavidade destila. Eu inspiro e suspiro por entre os dentes gemidos loucos roucos sofreguidão... Eu quero não posso, te toco me acendo, te tenho na palma da mão. O fogo não passa grassa assa agoniza e consome solidão.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

É preciso imaginar Sísifo feliz!

Foram necessários quase cinqüenta anos para que eu pudesse me encontrar com aquilo que sem se saber desejo, eu sempre desejei ser. Foram necessários quase cinqüenta anos quanto tempo perdido, quanto tempo vivido para que eu pudesse, face a face, olhar para tudo o que vivi com os olhos conhecidos, de quem se encontra com um velho amigo. Enigma decifrado, resta-me sem nenhum louvor, sem nenhum favor, fazer-me responsável por tudo que fiz, por tudo que quis, e o que, por demais, não soube ou não suportei saber. Que fronteira inexorável, encontrar-me assim tão próximo de um ser, obra minha, que sendo aquilo que é, não pode tributar a outrem, as motivações que são só suas. Saber-me, entretanto, virtudes e danos, pequenas qualidades e abismais defeitos, não encerra balanço aberto, e tampouco me faz menos compelido aos atos como seria mais conveniente a um homem de quase cinqüenta anos.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

De quem será, cuidado? Fico sempre tão impressionado com o muito muito que se faz do pouco pouco que é dado. Do residir assombrado que germina assim, tão frágil semente ganhando vulto em solo adubado. De quem será, do semeador, do semeado? Vivo a pergunta do mérito, da relação entre os dois, Cuidado.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Fundo de Mulher

Retirem-se as crianças da sala e também aos puritanos pois o poema abaixo contem elementos que podem ofender sensibilidades moralistas
Boceta não tem fundo! Ensina-me, num fim de tarde, num café grego em Atenas, com elegancia uma amiga. Traduz sabedoria ancestral herdada do bom senso de um avô. Paciente, explica e esclarece, essa singela verdade, masculinamente ignorada, por nós, tantos e vários varões saltitantes de uma para outra buscadores dessa quimera o fundo fundo de uma mulher. Não tem fundo, insiste ela, não adianta procurar mulher é bicho ôco, todas elas e qualquer uma, ainda que nem sempre o saibam e finjam outras ignorar. Boceta é abismo e precipicio pra mergulhar com coragem sem ter medo de morrer. Não tem fundo. Quanto tempo perdido, reflito na pressa masculina de ali se instalar causados da ansiedade de fundo, no fundo da mulher não encontrar. Onde começa, onde acaba este ser túnel que se perfura todo dia ontem, hoje, amanhã num eterno recomeçar. Quanta ilusão destilada, quanto medo de errar quantas mulheres esquecidas distantes elas mesmas de sua verdade elementar. Não tem fundo ! Boceta não tem fundo, repete a amiga, não adianta procurar. Se acalmem todos os homens mulheres, não há porque se envergonhar não ter fundo não é defeito fonte do profundo mistério, impossivel, mulher decifrar.

domingo, 19 de novembro de 2006

A bailarina elegante
A bailarina sangra o coração sangra o seu e o meu, sangra o de muita gente mais. Sangra com a sua propria mão. A bailarina se castiga, mortifica-se, maltrata, consome-se em culpas por faltas que não cometeu. A bailarina quer perfeição.
Se envergonha pelos enganos alheios se aborrece com que lhe parece feio. Fica irritada ao espelho que revela, as falhas do ambicioso ideal. A bailarina sofre e sofre. Sofre e não aprende a lição. A bailarina imagina um rigor, rigor, que no mundo não tem. Elegante bailarina, mire nisso, mas mire com muita atenção;
no dizer de Balzac, elegância é parecer-se com aquilo que se é. Estimar suas perebas e suas feridas no pé.
Marinheiro Em cada mulher porto eu poderia ficar atracado por um ano inteiro ou descuidado por toda uma vida, tomando os ventos que não se repetem, no ritmo constante das marés. Em cada mulher porto,
ó marinheiro, existem tantos motivos vida inteira não seria bastante, para tudo conhecer e explorar, mil razões para ficar. Em cada mulher porto, tantos santuários, delicadezas sutis, lóbulos de orelhas, curvas de pescoços, planos e altos, planicies extensas de lento percorrer.
Sorrisos, caras e bocas, palavras, sons e humores, doçuras de menina, jeitos de mãe cuidando da gente, garras felinas que lavram o corpo, imprimindo marcas que não desaparecerão jamais. Em cada mulher porto, a ancora atracada geme gozos incontroláveis de um barco esquecido de sua sorte de navegar, olvidado das pelejas, tantas ondas a cortar. Em cada mulher porto a escolha decisão: desistir de ser barco fazer-se barro, encalhado até as ameias encher-se das caracas e no lodo amalgamar-se tornar-se uno com o fundo seco do mar. Ou partir, lançar-se ao mundo, soltar amarras, desfraldar velas, zarpar, zunir nas tempestades acoitado pelos elementos, vagarosamente deixar-se levar por calmarias e indolências num mar, silêncios profundos, que espelha e brilha, céu azul. O que ser barco nunca escolhe, marinheiro,
é rumar em destino a algum porto-lugar,
atavico desejo de se atracar. Que a barcos e portos, a portos e barcos, desde o tempo dos tempos, outra escolha não se oferece
e não conhecem outro drama que possam, outro, encenar.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Cúmplice

Devagar, sediciosa, silente,

escorregas, infiltras, escoas,

pelos orifícios de minha alma

e te aninhas, como claridade,

nos meus recantos mais obscuros...

Insistente, a tua palavra me chama e ecoa,

nos meus fundos mais fundos,abissais,

reverberando boas novas,

fazendo promessas de paz.

Que toda essa doçura que conjuras,

reverta em ti, força coragem,

bálsamo aos teus delicados pés.

Que tua semeadura seja fértil,

que o cansaço não te colha

e que, mesmo sem o merecer,

eu possa, de te receber, preciosa,

toda a luz que tu me trazes.

Beijo-te sempre com os beijos da minha boca,

digo-te sempre as palavras que são só para você

porque te beijo sempre

com os beijos que são só teus

e te falo sempre na paz

que também é tua.

sábado, 2 de setembro de 2006

Pastoreio Eu não guardo rebanhos, nem apascento cardumes de peixes (você sabe que eu os pesco, não adiantaria mentir) Tomo conta de duas ou três idéias, as poucas que tenho e que teimam em fugir logo quando eu as imploro e mais preciso delas... Não somente por isso, mas principalmente por esta razão, não posso ser poeta... Profeta talvez, quem sabe, de uma causa da liberdade ... (doce ironia justo eu o que mantenho cativas estas duas ou três idéias que de mim teimam em fugir) o canto de minha boca, assobia, entretanto, uma canção e se você parar para ouvi-la vai poder saber, talvez, o que anda pelo meu coração...
FLOR DA SECRETARIA Flor solitária por companhia clamas. Assim tão só jaz no jarro da secretaria. Presente de admirador fugaz que assim te quis refrataria. E no dati datilografar (digi digitar) voa em fantasias, ao trabalho se vendeu, a mercenária. E nem te percebe. Nem a ti nem a tua dor. Solitária. E complacente poeta um poema dedico-te. Reparo a dor que assim tão flor, tão só, sentes. Sofres a dor de ser flor. Flor solitária, de desatenta secretaria.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

ANTES DA RUÍNA FINAL... Jerusalém, Jerusalém, és hoje o corpo do próprio homem carregas no teu seio a praga da escuridão. Todo o facho se consome e só tu não te iluminas; perdida foste, desgarrada és, a vagar alienada, foges ao perdão. Jerusalém, Jerusalém, quão seduzida estás, compras e te vendes ao consumo e mergulha-te cada vez mais em sandices orgíacas em materialismos infernais. Fechas as portas a ti abertas ris e debochas do sagrado: apressa-te e cuida-te Jerusalém! Em breve para ti os portões estarão cerrados A blasfêmia mais vil gruda-te à boca como o visgo A perfídia te invade ignoras o mais tênue amor. Jerusalém Jerusalém, assim foi, assim será em teu ser danado que na insanidade persiste só a permanente e lacinante dor do estilete delgado conhecerás. Acorda Jerusalém ! Desperta neste ocaso do dia banha-te nas últimas réstias de luz: conquista a legitimidade de ser filha do Pai Que a Ele pouco importa que do inficentésimo instante, obreira de última hora, sejais. Jerusalém, Jerusalém neste último instante vislumbre a possibilidade da paz torna-te ao teu caminho e não peques mais.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Eu que amo tanto Eu que amo tanto a solidão, hoje abomino o vazio da sua falta ... Da falta que me faz saber que você existe, que você me ama e que você me quer. E que, por isso, hoje somente hoje, não corro, portanto, o risco de ser assim tragado por ela - a solidão - a quem amo tanto, e assim não ser hoje tão só somente só como um desejo sempre.

domingo, 30 de julho de 2006

BRASÍLIA 1979 No palácio reina o ditador geme no planalto a flor de concreto. O cerrado nunca dantes navegado se estremece em sua nudez descoberto. Nos versos minha conspiração de poeta. Distante, a revolta, no calor do povo, transpira. Aqui o poder tem o seu lugar paletós de chapas brancas burocratas de gravatas atam e matam por decreto, o novo: o louco criar de um povo.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

CRIATURA Para Fernando Pessoa

Fazer poesia para mim é quase me encontrar com Deus. Afinal não é Ele. dos poetas, o maior? Que os poetas falam de flores, vôos de pássaros, azuis de borboletas sois poentes e tudo mais. E quando são poetas tristes, falam de musas e da sua beleza, e tecem comparações com as coisas da natureza. E mesmo os poetas loucos, que hoje invadem a cidade e cantam coisas de guerra, em versos mal silabados, falam do homem; das suas dores. E vendo toda essa poesia, natural, triste ou louca, eu penso em Deus Criador, que glosando em mote divino tantos temas produziu, prá nós, poetas menores.

tempo sem sol Para Bertold Brecht Foi um tempo de crise, foi um tempo sem sol, foi um tempo sem dó. Quem o viveu é que pode saber. Os gestos bons se tomaram escassos. As palavras congeladas nas bocas. Fúria e confusão, rodopiavam as mentes. A desconfiança instaurou-se como regime dos homens. As crianças mudas, caladas, estampavam nos olhos, pavor. Muitos tiveram desejos de morrer, outros tantos morreram. Quantos pelos caminhos caídos amontoados como restos usados que não têm mais valor. As cinzas cobriram as árvores, nem lembrança das flores restou. O medo profundo, corroeu um resto de humanidade que teimava em ficar, toda memória de calor, de afeto ou ternura dissolveu-se num vapor frio, pegajoso e úmido que a tudo e a todos uniu, num cemitério geral. Foi um tempo de crise. Foi um tempo sem sol. Sem sol, sem esperança e sem dó.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

transverso Delicadas as fronteiras dos mundos em que habito e que, de um lado para o outro, sem perceber, transito. Neles as coisas podem ser e não ser, quase ao mesmo tempo, a depender somente das escolhas que fazemos, das cores que escolhemos para cobrir a matéria fina do pensamento. Porque o que parece importar, as vezes não tem importância própria. Mero pretexto, cenário ou trama, para exercitar o verdadeiro drama de se fazer escolhas e aprender com elas... O que será de nós, ó minha senhora, que de escolha em escolha nos enredamos, se delas perdemos os seus sentidos, e esquecidos dos seus verdadeiros motivos, nos distraímos com aquilo que elas parecem ser? Sublime então o desafio de viver, ao mesmo tempo sustentando, o gosto das escolhas que fazemos e o fazer das escolhas que gostamos... Sendo ao mesmo tempo, ator e autor, da peça que, vivendo, escrevemos... Representando os sentidos que, quaisquer outros, outros poderiam ser mas, que, sendo estes aqueles que escolhemos, nos fazem definitivamente ao vivê-los, eternamente responsáveis pelo que vivemos... O que será de nós minha senhora, é coisa que eu não sei... Mas eternamente nós seremos, responsáveis pelo que vivemos, e pelas escolhas que fazemos.

terça-feira, 11 de julho de 2006

LADAINHA Francisco dos farrapos meu bom santo, ilumina-me o meu caminho, ensina-me o amor do coração, ensina-me a falar aos passarinhos. Francisco dos farrapos meu bom santo, tu que se casaste com a pobreza ensina-me cortejar tão nobre dama, ensina-me a humildade e a nobreza. Francisco dos farrapos, Francisco roto e descalço, qual é o mistério que nos faz de todos iguais, de todos irmãos? Qual é o mistério, que doma a carne quando esta nos diz não? Francisco dos farrapos meu bom santo, Francisco roto e descalço que dos teus olhos irradias somente amor e bondade diga-me qual ë a batalha prá se conquistar a humildade? Se o meu coração te ouvisse mais que os ouvidos querem escutar, de te ouviria nesta hora, de tão contrito orar, Dizer-me da via tão simples na qual maltratastes teus pés. Nada querer. Não desejar. Na fé, a Deus se entregar. Mas meu coração não te ouve, não ouve, o que me tens prá falar os meus ouvidos não deixam de ti esperam resposta. Parado no mesmo lugar eu continuo a rezar. Francisco dos farrapos meu bom santo...
Um poemeto pateta. O poema, que pena! Não sabia Decidir: era clara ? era gema ? O que lhe fazia afinal, ser poema ? O poeta, Que pateta! Não sabia decidir : Era papo ? Era meta ? O que lhe fazia afinal, ser poeta ? Ema e Eta, as duas rimas assim coitadas, perdidas sem pó não sabiam pelas ruas andar nuas. Nem sabiam decidir: Poema ou poeta ? Talvez, quem sabe um poemeto pateta !

segunda-feira, 10 de julho de 2006

SANSSARA A gente brinca de roda. A roda roda. A roda brinca com a gente. A gente sobe. A gente desce. A roda brinca ate a gente cansar E a roda, só por gostar roda; não quer parar de brincar. Roda, Roda! E a gente a ajudar mesmo querendo parar, Um, dois, subiu, e treis, quatro desceu. De novo! Outra vez! Já! Da roda, correia e caçamba nossa força no rodar. _ Pare com isso menino! _Desce dai! Vai machucar... Mamãe e Papai a chamar. Menino surdo.. Menino burro... Pobre menino... Ele só não sabe como parar de brincar! Poesia que gera poesia... Surpresa boa quanda a poesia causa a leitora e a empurra para um post tao complementar... muito legal Nanda...muito bom Eu pedi, pedi, pedi.. pra roda parar de brincar porque depois que cansa perde a graça pra criança E aí grita-chora-berra-cala só quer o colo, não roda Mas aí Papai-do-Céu vem em sonho e diz: menina peralta, pediu pra brincar! E a menina pergunta "será?" Ela sabe que machuca, ela pede pra parar Tenta de todas as formas mas empurra sem querer É que a mulher-menina mais mulher do que menina mais menina que mulher não aprendeu a crescer. by nanda reboucas

sexta-feira, 7 de julho de 2006

ZA-ZEN Como criança incapacitada da fantasia e entediada com a monotonia do sempre igual brinquedo, num gesto de pouco pensar, lançei minhas coisas ao ar. E elas cairam: o preto no lugar do branco o azul, no do vermelho; o verde no do amarelo. E tudo teve um novo lugar. Brinquei, mas brinquei pouco. O gesto me deixou atento: uma ordem continuava a existir, proibindo o possível e sua mutabilidade. No ensaio de um gesto desesperado, lanço tudo de novo ao ar: Agora, j á! E descubro: O difícil não é mudar a ordem das coisas. Difícil é mantê-las no ar. Difícil é mudar as coisas da Ordem.