bóia farol meta em desespero tudo puxa para o fundo dos abismos o mais banal dos instintos rege por total o ser salvar-se para encontrar ponto de apoio sobre-viver emerso ao custo do assassinato do poema quem se importa fazer da palavra poema coisa tão banal constranger as musas deixar em maus lençóis a poesia tratá-la sem pudor mero suporte socorro coisa palavra usada nos ritmos cardíacos renais venais do corpo em desespero que não quer morrer legitima defesa gosto gorduroso da vida
o apetite lhe aguçava
mas lhe fez interessar
por uma história que contava
com suspense que dava gosto
e pôs o ponto de amarração
quando o sol já quase brilhava
e sem se fazer-se brava
disse que mais não contava
aceitava que já era hora da execução
o rei enrolado em seu novelo
entre a promessa a si mesmo feita
e curioso pela história e seu fim
nova noite concedeu,
mas ja foi lhe avisando
uma mais e nada mais
pois com ele , era assim!
com beleza e esperteza,
a moça não se fez de rogada
disse que lhe contaria o conto
até o fim da madrugada
uma noite e outra mais
sempre a mesma estratagema
as histórias que fiava
uma na outra entremeava
e o sol por testemunha
sempre que ele nascia
ainda tinha história não contada.
noites e noites de fala doce
dizem que mil e uma atravessadas
em tão bom entretenimento
que o rei ja nem se lembrava
do seu torpe juramento
apanhou gosto pela donzela
se nutriu com a formosura
em paixão foi se enredando
e foi como numa travessura
em tal grau de afeição
nada mais ja lhe restava
ao mal fadado decreto
decretou revogação
e pra moça tão esperta
declarou sua paixão.
de histórias que nunca acabam
em tramas bem emendadas
sherazade fez escola
quando ganhava um abraço. vivia assim, sem abraços, com medo de evaporar. não existia príncipe encantado poção mágica, palavra escondida ou amuleto que pudesse livrá-la desta estranha condição. Ia vivendo a sua vida, pois as outras coisas ela podia fazer muito bem, mas faltavam os abraços... um dia ele perdeu o medo e resolveu experimentar abraçar assim mesmo. mesmo correndo o risco, ela fechou os olhos, respirou fundo
e recebeu um grande abraço de ano novo... Para a sua surpresa ela foi evaporando bem devagarzinho,
e virou um vaporzinho de cheiro muito delicado
e como uma pequena nuvem ela foi voando, voando
e de repente, ela foi virando gente de novo... Aí, ela descobriu que ela podia evaporar e virar gente de novo
e desde então, sempre que existe uma condição muito especial
ela pede um abraço, vira nuvem perfumada, vôa bastante
Eu sempre hesito.
Não tive a sorte da auto confiança.
A que ostento hoje, confesso,
tem algo de um falso verdadeiro
Falso porque nem sempre foi minha
verdadeiro porque foi inventada
com os retalhos que me sobraram
nas tantas vezes que o mundo me negou.
Sem mágoas nem ressentimentos
sei que as manhãs florescem
distintamente para cada pessoa
e talvez seja por isso
que sempre recebo o apreço alheio
como se fora uma enorme dádiva,
consciente da absoluta falta de obrigação
de qualquer um para comigo.
Talvez seja por isso
que as vezes eu hesite
e espero um pouco até algo ser dito
para então oferecer a retribuição.
não acredites no que dizem de mim que sou sonhador, que deslizo nas águas que sou pouco prático, fraco e indeciso talvez um pouco exótico, um tanto romantico
mas nada tanto assim, que de perto ninguém é normal e, ademais, de ti também falam mal que és rainha despótica, exigente e que enxergas tudo pela sua ótica e queres ser sempre a figura central. Se agua e fogo se desafiam certamente se darão mal um se apaga e o outro se evapora cuidado portanto há que se haver para aproximação que não seja fatal mas se me aqueces , eu te refrigero teremos uma temperatura ideal todo cru será cozido no fogo lento, a agua ferve o som das ondas e o fogo a crepitar podem ser sinfonicos num alternar se fores rainha, posso ser súdito leal me cai bem ter uma musa a quem devotar meu ideal. só uma coisa tenho a pedir que não me trates nunca mal sede justa soberana, é a justiça um caminho para o céu. Assim sendo, para você mulher de leão homem de peixes tira o chapéu.
eu te peço licença
por invadir sua caixa postal
com poemas da Adelia Prado,
aquela poetisa mineira
tão dona de casa e tão mineira,
que descobri que você
tão dona de casa e tão mineira
ainda não conhecia.
nem era essa a minha intenção.
mas li um, e achei que você ia gostar.
li outro, e pensei que você ia gostar mais ainda.
e foi assim, de um em um,
pensando em despertar seu gosto
que eles foram se enfileirando
vários, como um exercito de palavras,
cobiçosas de te provocar.
pensando que, se você gostasse
da poesia da Adelia Prado,
se a apreciasse, tanto quanto eu a aprecio,
então era de mim que você gostaria.
mas, o que tenho eu a ver com a poesia da Adelia Prado?
de onde me vem essa idéia maluca
de que se você gostasse da poesia da Adelia Prado
também haveria de gostar de mim?
quando cheguei a essa parte
em que o pensamento refletido
faz perguntas sobre as coisas mais surdas,
que se passam dentro da gente,
ainda bem, a invasão já havia se consumado.
as mãos ligeiras, que nos cliques do teclado,
de site em site, encontraram e separaram
para ti, os tesouros da lavra da Dona Doida
sabem, aparentemente, mais de mim
do que eu proprio.
deixo-te então com a sua caixa postal
invadida pela poesia da Adelia Prado
e com todas as interrogações que só ela
é capaz de provocar.
deixo-te o intenso dessa palavra feminina
mãe, mulher, dona de casa, santa e puta
em sua condição mais nua
palavra poesia que edifica no cotidiano
e transforma o mais simples e mais frugal
em um espectáculo de pura magia.
nas brumas do tempo que não passa
busco teu ser mas só encontro fumaça
sigo a minha intuição no labirinto
recrio, ao meu gosto, a ti, no fundo baço
com as cores da aquarela que eu pinto
se te faço menos bela, eu não minto
é a minha memoria que me atraiçoa
ao evocar- te assim, ó ser do espaço
em tua evanescência tu és pura névoa,
que sempre escapa ao meu abraço.
de tudo que uma mulher tem para me oferecer companhia, amizade, sexo e amor nada se compara ao bom humor que a companhia pode ser azeda a amizade interesseira e o sexo banal. mesmo o amor, pode ser um falso brilhante o egoismo muitas vezes confunde, dar amor, com o deixar-se ser amada. mas o bom humor é antídoto para todos os males que o riso torna a companhia iressistível quando tudo vai bem, mas, sobretudo, quando vai mal a amizade só é sincera quando somos capazes de achar graça, até nos defeitos alheios. o sexo é perdição quando a alegria toma conta gozar é morrer de jubilo num prazer sem fim quanto ao amor verdadeiro, ele não é senão que, a mais pura expressão do bom humor por isso, minha senhora, para eu possa ser feliz me sirva companhia, amizade, sexo e amor mas nunca se esqueça, por favor, tempere sempre, tudo com muito bom humor.
Eu não gosto das pessoas comuns eu não gosto das pessoas iguais
eu não gosto das pessoas normais de minha parte prefiro as especiais nem sempre elas são as mais fáceis nem sempre o encontro é possivel mas ainda assim as prefiro. Não que não goste das outras as que são repetitivas e monótonas mas delas me canso depressa canso por serem tão previsíveis sem o charme proprio dos que sabem sempre nos surpreender. Gosto daquele brilho de sangue nos olhos da inquietação motora, a quem falta paz da cessação de todo movimento nos mergulhos profundos, aos mundos siderais. Gosto disso, daquilo e sempre de um pouco mais os salteados sempre os prefiro
Vem, atravessa esse portal,
se jogue nessa viagem
pé ante pé, na corda bamba,
bandeirinha no varal.
Desafia o precipício,
nem todo gosto é vicio,
nem todo vicio imoral.
"Não entendi muito bem o que você me falava. Havia um descompasso entre o movimento dos seus lábios, seus olhos assustados e o tom calmo da sua voz. Só depois caiu a ficha: você estava me dando adeus... Fiquei ali parado, entorpecido. Eu era toda inação. Fui tomado por um senso radical de economia que me informava que diante do desastre eminente que empurrava minha vida para o abismo, qualquer gesto seria inútil. Pura perda de tempo. Foi assim, com o corpo desmontado numa cadeira, que vi a porta se abrir e em seguida se fechar. Um piscar dos olhos meus e você já tinha ido.. È curioso como a gente vai se acostumando com as pessoas que amamos ou que pensamos amar. O tempo de convivência parece ter o poder de entorpecimento das memórias de nossas identidades individuais. As recordações sobre o estranho que acolhemos um dia em nossa simpatia se dissolvem, na exata medida em que vamos assimilando os cheiros do corpo, o gosto da saliva ou do suor, a imagem invertida de nós mesmos...
Estranha despersonalização esse efeito temporal que no acumulo dos dias bons e alguns ruins, vai apagando em nós, a noção obvia de que o outro é um outro. È insidioso o trabalho que a convivência opera, nos ocultando a verdade elementar de que as liames que nos unem no amor são mais de natureza imaginaria do que biológica... Mas na hora do adeus é o corpo que paga por esse estado de alienação. Não que eu pudesse alegar ter sido pego de surpresa ou que tua partida tivesse algo de desleal. Quando a porta se fechou, atras de você, eu era a própria consciência das tantas advertências, que entre soluços e lagrimas, ou aos gritos irritados as vezes, suplicante você me havia endereçado... Na verdade eu me sentia de tal modo ligado a você que tudo aquilo não me parecia senão como um teatro, que você como uma parte de mim, se rebeleva contra a minha recusa de abrir mão daquilo que, para além de você, tambem me fazia gozar...e que a sua obstinada recusa em aceitar fazia incendiar e me fazia reincidir. Veja, já estou de novo aqui colocando a culpa em você. Jurei para mim mesmo que eu não faria isso de novo. Nos meus momentos mais lucidos essa foi a unica condenação que sempre assumi. Não haveria de haver culpados... Não dessa vez! Mas na verdade eu nunca acreditei que você tivesse a coragem suficiente para ir embora. Talvez porque na minha mente embaralhada nem você, nem eu, seríamos suficientemente corajosos para nos deixarmo-nos ficar para trás, nem um, nem o outro. E estes pensamentos todos que começavam a se insinuar em minha cabeça, não mefaziam bem. Então fiquei muito enjoado e comecei a vomitar..."